Sobre dor

Atualizado: 18 de Fev de 2021

Nota: esse texto é uma tradução e livre adaptação de três fontes. Pain Fundamentals: a pain science Education workbook for patients and therapists, de Greg Lehman (http://www.greglehman.ca/pain-science-workbooks/). Pain Map - a mindbody perspective, de Sean Nicole - Republic of Movement. (www.republicofmovement.com). E Fifty Something Quotes from Dr. Lorimer Moseley.


Portanto, qualquer benefício que esse texto traga deve ser creditado a esses autores. Qualquer informação equivocada no texto abaixo deve ser creditada a mim. E a responsabilidade integral pelo processo de reabilitação e de lidar com a dor na sua vida deve ser creditado a você. 


SOBRE DOR 

A primeira coisa que precisamos entender sobre dor é que o paradigma usado no senso comum e, infelizmente, por muitos profissionais está desatualizado. A descoberta de que a dor é algo muito mais complexo do que comumente pensamos é muito recente, e por isso tão pouco conhecida. Mas a nova visão da dor é tão revolucionária que hoje há um braço exclusivo da ciência desenvolvido para entender e pesquisar a dor como um fenômeno. 


A concepção de dor que temos no senso comum hoje se baseia em um modelo cartesiano do século XVII de dor como uma sensação. Como se houvesse no corpo uma linha direta de comunicação do nosso corpo com o mundo exterior. Dor era uma questão puramente física e linear. Como se tivéssemos receptores de dor. Por exemplo, você se queima, um nervo é ativado e você sente dor. A esse modelo, se somou o modelo postural-estrutural-biomecânico da dor. Esse modelo, baseado nessa ideia cartesiana, via a dor como resultado de stress postural, de assimetrias físicas e de mecânica errada de movimentos. Esse é o paradigma tradicional da dor que está sendo posto em cheque depois de séculos de incapacidade de resolver os seus problemas. 


A partir de 1960, alguns modelos começaram a perceber o envolvimento do cérebro na produção da dor. A ideia de que dor era apenas uma sensação começou a ser questionada. E percebeu-se que dor deve ser vista muito mais como uma percepção. Com o estudo da dor fantasma (pacientes que sentiam dor em membros amputados, a dor existia mesmo sem o membro estar lá) percebeu-se que a dor não era simples resultado inequívoco de determinados estímulos (lesão). Dor é resultado de uma interpretação do nosso sistema nervoso. 


Para decidir se a dor vai ser ativada, o nosso sistema nervoso interpreta todos os dados dosistema, onde a existência de uma lesão de fato é apenas um dos dados. Outros fatores biológico devem ser levados em consideração. Stress, alimentação, repouso, temperatura, hora do dia... tudo isso entra na conta também. E além dos aspectos biológicos da dor, temos que considerar também aspectos psicológicos e sociais. Crenças, memórias e contexto. É a interação entre todos esses fatores que define se nosso sistema nervoso vai ou não ativar a sensação da dor. 


Imaginemos a dor como um copo de água. Se a água transborda do copo sentimos dor. O que enche o nosso copo? Uma lesão é apenas um dos fatores. Há todos esses outros fatores biológicos, psicológicos e sociais que entram em jogo. E por isso é possível dizer que existe dor sem lesão, assim como existe lesão sem dor. E quanto mais tempo sofremos com uma dor (a chamada dor crônica), menor a chance de ela estar relacionada a uma lesão. Tratar dores crônicas é uma questão de tratar o “cérebro” (sistema nervoso) muito mais do que o “corpo” (tecido). É um trabalho de convencimento do sistema nervoso. Convencê-lo de que a ameaça foi embora para que ele pare de enviar sinais de dor. Isso é feito a partir de um conjunto de práticas. Fazem parte desse trabalho desde um bom descanso, boa alimentação, até reformulação de crenças, educação sobre dor e movimento e obviamente a prática de movimento, bem dosada e feita com atenção, que vai aos poucos dessensibilizando nosso sistema nervoso. Imaginar cenas como “nervo pinçado”, “disco vertebral fora do lugar”, “coluna torta”, “músculos fracos” não ajuda a tratar dor. Pelo contrário.


Sabemos que muitos desses eventos são apenas mitos. Ou porque realmente não existem ou porque não tem relação comprovada com dor. E mesmo no caso de serem reais, também sabemos que não são causadores necessários de dor. Essas crenças catastróficas, medos e traumas, além de nos levarem, fisicamente, a um excesso de contração muscular desnecessária, sensibilizam ainda mais nosso sistema nervoso e ativam nosso sistema de alarmes que é a dor. 


Seguem alguns pontos chaves para entender a dor e lidar com ela: