Sobre copiar e ser copiado

Em tempos de internet e mídia social, muito se faz e muito se copia. Qualquer coisa que faça algum tipo de sucesso na internet vai ser copiada. Sobretudo depois da pandemia, quando estamos nos voltando mais e mais para o mundo virtual, a discussão sobre copiar/ser copiado, se tornou mais calorosa ainda nesse contexto.


Vou contribuir com meus 20 centavos nessa discussão. É comum dizermos que, na internet, ou você copia, ou é copiado. Concordo. E também concordo que é melhor estar no segundo grupo. Não é legal gastar energia de vida, tempo, mufa, para construir algo, só pra depois ver sua ideia sendo reproduzida por quem não teve o mesmo cuidado com o processo, mas quer pegar carona nos resultados. Incomoda ver os outros te copiando? Incomoda. Mas é besteira. Não deveria.


O motivo mais óbvio é que, se você está sendo copiado, essa é a validação mais certeira de que o que você está fazendo tem algum valor. Do contrário ninguém copiaria. Mas se formos um pouco mais fundo perceberemos que: O que tem real valor não pode ser copiado. As pessoas podem olhar o que você faz, e tentar reproduzir. Mas se o que você faz realmente tem um valor intrínseco e profundo, não há forma de copiar esse valor, sem trilhar um longo caminho, como você trilhou. Podem imitar técnicas, podem até reproduzi-las adequadamente. Mas copiar princípios, aqueles que formam as técnicas e que geram conhecimento, é muito mais difícil. E sim, no curto prazo, imitadores podem ter relativo sucesso, mas nada como o tempo, o maior juiz, para recolocar as coisas em seu devido lugar.


Por isso, para mim, a preocupação exagerada em “esconder conhecimento para não ser copiado”, surge de uma insegurança fundamental a respeito do valor do seu próprio trabalho e de si mesmo. Pois quando você tem segurança plena no seu valor e no valor do que faz, não há muito porque se preocupar com cópias. Ninguém pode copiar quem você é. E ser quem você é, e fazer o que você faz, foi o que gerou o resultado, em última instância.


O sábio Naval Ravikant define o conceito de conhecimento específico. Segundo ele, conhecimento específico é tudo aquilo que não pode ser ensinado em uma escola ou faculdade. Porque se pode ser ensinado, qualquer pessoa pode aprender, e te substituir. Mas nem tudo pode ser ensinado. A combinação única da sua conformação genética, as suas experiências e gostos, e as habilidades específicas que você cultivou ao longo da vida não podem ser copiadas. Percebam que isso não tem nada a ver com um romantismo ingênuo de supor que todos somos flocos de neve únicos pelo simples fato de existirmos. O cultivo é fundamental. De nada adianta ser unicamente qualquer coisa. É o cultivo constante, a curiosidade, o trabalho, a fome de entender o mundo, de construir coisas, envoltos em uma prática dedicada e consistente que, com o tempo, vai gerar o tipo de conhecimento específico que torna alguém, ao mesmo tempo, único e valioso. E essa é a condição que é impossível de copiar.


Por outro lado ainda, não devemos descartar o valor da cópia, como algo restrito a “imitadores baratos”. Pessoas baratas sempre existirão. Mas não joguemos fora o bebê junto com a água da banheira. Copiar tem um valor fundamental para os humanos. É a forma como nós aprendemos. Nós humanos somos os maiores e melhores imitadores do planeta. E esse é um dos motivos de estarmos onde estamos. Copiar te tira do seu lugar, e te leva a experienciar outro lugar que não é o seu.


Mas o que diferencia uma “cópia barata” de uma “cópia boa”? O que, fundamentalmente, diferencia um imitador barato de um gênio é a quantidade e a qualidade das pessoas que ele imita e, consequentemente, a quantidade e a qualidade das suas imitações. Um gênio inovador é alguém que copiou tantas outras pessoas de valor, por tanto tempo, com tanto comprometimento, que acabou encontrando sua singularidade no caminho. Que construiu seu conhecimento específico, e foi além da cópia. Igor Stravinsky disse que “um bom compositor não imita, ele rouba”. Stravinsky entende a diferença entre copiar, e copiar. Roubar significa de fato fazer algo que vai além da simples reprodução. E isso exige ter copiado muito. Copiar é o caminho para poder parar de copiar.


Portanto, gastemos menos energia nos preocupando com imitadores baratos e mais em tentar ser bons imitadores. Sem medo de compartilhar conhecimento e verdadeiramente ocupados em construir mais valor para si e para os que nos cercam.