Sistemas Complexos e Movimento, ou “por que erramos tanto ao lidar e tratar o corpo humano?"



Esse texto é para todos, mas sobretudo para aqueles que, depois de uma lesão ou de uma crise de dores, se consultaram com vários profissionais de saúde, mas seguem com dor e, em vez de conseguir retornar às suas atividades e práticas físicas, estão cada vez mais distantes delas. Espero aqui poder explicar da forma mais clara possível o que considero uma falha epistemológica na abordagem tradicional do movimento que, em certos casos, pode acabar atrapalhando mais do que ajudando as pessoas a retomarem sua vida e reconquistarem função e saúde.


Longe de querer bater indiscriminadamente em toda uma classe. Respeito máximo por todos os profissionais que honram seu ofício e estão sempre buscando conhecimento e se renovando. A intenção aqui é apenas apontar uma falha no paradigma geral que embasa boa parte da visão ocidental moderna sobre saúde e movimento, que acaba pautando a forma como a maioria de nós, leigos ou profissionais, enxergamos nosso corpo.


Também é importante ressaltar aqui o valor da autonomia individual para refletir sobre toda a informação que recebemos para tomar decisões informadas e não apenas seguir diretrizes alheias que nem sempre têm interesses alinhados com os nossos.


Atletas vs Pessoas comuns, ou “o nosso corpo não é uma máquina”


Quando vemos um atleta desempenhando um padrão de movimento qualquer, um jogador de futebol realizando um drible espetacular, uma levantadora de peso realizando um levantamento complexo, uma corredora profissional correndo… a primeira coisa que percebemos é a precisão quase robótica com que eles realizam os movimentos. Se pedirmos para eles realizarem o mesmo padrão muitas vezes, vamos notar que quase não há variação perceptível entre as realizações.


Já em um amador, alguém tentando aprender um padrão de movimento pelas primeiras vezes, a variação é enorme. Cada repetição sai de um jeito diferente. Por que?


O atleta, depois de milhares de repetições, encontrou a forma mais eficiente de realizar aquela tarefa. E com isso todos concordamos. O erro do paradigma terapêutico tradicional começa a partir daqui. E ele vai na seguinte linha:


“Menos variação é melhor, mais eficiente. Então o que eu tenho que fazer é usar os atletas como referência (ou pior), usar padrões de simetria baseados em física mecânica como referência, e forçar as pessoas normais a fazerem igual a eles. Assim elas não vão se lesionar. Pois existe um padrão de movimento ideal para todos baseado em leis da física”.


E taca-lhe restringir as possibilidades motoras para “consertar” as pessoas. Assim, o trabalho de reabilitação padrão, facilmente se resume a uma sessão de restrições motoras: “Não pode isso! Não pode aquilo! Joelho não passa da ponta dos pés! Olha o valgo! Coluna reta! Escápula retraída! Conserta essa postura! Tá errado! Assim vai se machucar!”.


As referências para “corrigir” o movimento partem de ideais de simetria e física mecânica, esquecendo completamente que estamos lidando com organismos biológicos, que não respondem a demandas da mesma forma que um organismo inanimado, como uma máquina ou uma alavanca. Uma grande diferença é que organismos vivos têm um sistema nervoso e, portanto, capacidade de adaptação e resposta às demandas do ambiente. E isso muda tudo na forma como interpretamos o movimento em organismos vivos.


Voltando aos atletas. O que é importante perceber é que a menor variação aparente no padrão de movimento do atleta não nasceu de restrições no trabalho de base. Temos aqui que entender a diferença entre variação na tarefa (que é visível) e variação na estratégia motora (que nem sempre é visível). Em uma máquina, a aparência é a essência. O que estamos vendo nos diz tudo sobre o que ocorre. No corpo humano, dotado de um sistema responsivo, não. E nesse caso, não devemos confundir a aparência com a essência. Me explico.


Imagine uma corredora de longa distância. Na medida em que ela corre, seu corpo cansa, o terreno se inclina mais ou menos, o sol entra ou sai de trás das nuvens, ela pega uma água com alguém da plateia, algum pensamento que não deveria vem em sua cabeça, uma competidora a ultrapassa, todas essas mudanças alteram o equilíbrio químico e físico da corredora, exercendo influência na sua corrida. Mas a atleta profissional sabe lidar com isso.


Se determinada musculatura cansa e pára de responder adequadamente, ela tem outras estratégias motoras para manter a mesma cadência eficiente. Se ela pisa em um desnível sem perceber, rapidamente retorna ao normal - o “seu normal”, o “normal da atleta” - usando uma de suas muitas estratégias motoras. Quando, por exemplo, o glúteo da atleta começa a cansar e tem dificuldades de impedir o valgo dinâmico do joelho, o atleta recruta outra musculatura para manter a cadência. Para isso, o equilíbrio químico interno dela também está preparado para fornecer as doses de cortisol, dopamina ou do neurotransmissor necessário para mantê-la realizando a tarefa pelo tempo necessário.


Uma profissional não está engessada à sua cadência. Pelo contrário. Ela está selecionando constantemente entre uma ampla gama de possibilidades motoras para seguir realizando sua tarefa com eficiência. Portanto, o que está acontecendo é que a corredora está correndo de mil formas diferentes, porém, para os nossos olhos, parece que é apenas uma forma. É a capacidade de administrar o caos do ambiente que permite a manutenção da tarefa.


A MENOR variação na tarefa, é fruto de um cardápio MAIOR de variações de estratégias motoras. O atleta tem muito mais estratégias motoras disponíveis do que o amador. Isso é o que permite que, mesmo diante das mudanças de condição do seu organismo e do ambiente, ele possa seguir realizando a tarefa da forma mais eficiente possível para o seu corpo. Também é importante lembrarmos que o que é eficiente para um atleta, para um organismo, não necessariamente será eficiente para outra pessoa, outro organismo. Pois esses organismos foram expostos a demandas diferentes do ambiente, portanto têm estruturas diferentes, capacidades diferentes e estratégias eficientes diferentes.


O amador, por sua vez, ao ser submetido às condições mutantes do ambiente, não consegue ordená-las de forma eficiente pois não tem o cardápio amplo de estratégias motoras que o atleta tem. E por isso o resultado é uma variação maior da tarefa. Nesse caso, a MAIOR variação na tarefa, é fruto de um cardápio MENOR de variações de estratégias motoras.



E o que isso tudo quer dizer?


Vamos agora para as consequências disso para o tratamento e reabilitação motora. Se sabemos que um movimento mais eficiente demanda mais estratégias motoras como forma de administrar o caos do ambiente de forma mais eficiente, como devemos abordar o processo de reabilitação? Repetindo exaustivamente apenas uma estratégia motora imaginada como “correta” e excluindo todas as outras? Ou se expondo de forma gradativa ao caos, dando espaço para o nosso corpo, em sua especificidade e inteligência, encontrar soluções amplas para problemas motores?


O corpo humano fica bom naquilo a que é exposto. Na natureza, o que não usamos, perdemos. Se você é exposto a restrições em um ambiente artificial que só te permite uma estratégia motora e define todas as outras como “erradas”, é apenas nisso que você ficará bom. Qualquer coisa que aconteça no sentido de te tirar desse padrão, vai te expor a uma situação com a qual você não sabe lidar. Vai ser caos demais para o seu sistema.


E é aí que os problemas começam. Uma lesão não é simples resultado de um “movimento ruim”. Uma lesão é resultado da incapacidade de um organismo em lidar com as demandas do ambiente. E nessa equação existem dois fatores. Um onde todos focamos, que é a demanda excessiva, e o outro que o mais importante e frequentemente esquecido, que é um sistema incapaz de lidar com essa demanda. Atribuímos culpa ao movimento, como se ele fosse errado em si, esquecendo de olhar para a incapacidade do sistema de lidar com ele. Esquecemos que diversos outros corpos realizam aquele mesmo movimento sem nenhum problema. Se alguns movimentos fossem ruins em si, ninguém poderia realizá-los.


Portanto, uma abordagem de reabilitação deve, gradualmente, aumentar a capacidade do organismo em lidar com o caos do ambiente e não restringir suas capacidades de adaptação. Ser saudável significa ser adaptável.


Agora espero ter deixado mais claro onde muitos terapeutas erram ao projetar seu tratamento. Eles erram ao supor que restringir estratégias de movimento vai resolver o problema dos seus pacientes. Além de restringir as possibilidades de solução de problemas naturais do corpo, ainda falham em reproduzir quaisquer condições de um ambiente parecido com o mundo real. Botam o sujeito em um contexto totalmente controlado, linear, artificial e ainda fornecem todas as regras segundo as quais ele deve realizar aquele movimento, baseados em ideias de simetria e física mecânica, que não são plenamente aplicáveis quando falamos de organismos biológicos.


Essa estratégia de “consertar o movimento” ou a “postura” vem se mostrando bastante ineficaz há décadas. E o problema é que ela acaba se tornando uma profecia auto-realizável. Pacientes e mais pacientes entram em processos terapêuticos só para ouvirem que “se movem mal”, que “estão com a postura toda torta”, que “têm um problema na coluna” ou que “devem evitar fazer” seu esporte/atividade preferida.


Receber mensagens catastróficas nos deixa com mais medo ainda de se mexer, geram mais dor e acaba nos afastando ainda mais das nossas atividades cotidianas, quando o objetivo deveria ser exatamente o oposto. Cada vez mais as pessoas, ao retornarem a suas atividades, em vez de estarem munidas de um cardápio de soluções motoras, estão munidas de um cardápio de visões fragilizantes, catastróficas e restritivas sobre o próprio corpo. Crenças limitantes somadas à falta absoluta de estratégias motoras, não costumam terminar bem quando a pessoa se expõe ao mundo real. E assim, o objetivo do terapeuta, que deveria ser o de ampliar as estratégias motoras do paciente, permitindo uma maior adaptabilidade do organismo diante das condições do mundo real, acaba indo no sentido contrário.


Solução?


A solução, infelizmente, não é fácil. Mas o primeiro passo foi dado. Que é ter a compreensão do problema. A partir daqui o desafio é encontrar um bom profissional, atualizado com as recentes descobertas a respeito de dor, biomecânica, sistemas complexos e lesões, e seguir o máximo possível com suas atividades, pensando mais em ajustar a dose da atividade física do que em “fazer” ou “parar de fazer” apenas. Uma forma fácil de identificar um bom profissional é a seguinte: se te dizem para parar com as suas atividades sem estabelecer nenhum tipo de prazo para o retorno, certamente você não está lidando com um bom profissional. Se um(a) profissional está mais preocupado(a) em “corrigir sua postura” do que com o seu retorno funcional às atividades que você desfruta, dificilmente se trata de um(a) bom(a) profissional.


Toda atividade física envolve riscos. Mas como diria o sábio Guimarães Rosa: “Viver é arriscado”. Na tentativa de minimizar os riscos da vida real, não podemos nos deixar cair no pior de todos os riscos. Que é parar de realizar atividades físicas. Parar de realizar atividades físicas é a pior coisa que uma pessoa pode fazer pelo seu processo de reabilitação. Pois nem um risco é. É a certeza de que problemas virão.

Mas como muitos profissionais não entendem o suficiente de movimento para propor ajustes na intensidade, na dose da exposição, preferem negar o acesso dos pacientes àquelas atividades que são tão importantes para a saúde das pessoas.


Portanto o desafio está em encontrar estratégias para seguir realizando a atividade, sabendo que o corpo é altamente resiliente e adaptável, mas dosando a intensidade de acordo com suas necessidades. E se você não se sente apto a encontrar essas estratégias, busque alguém que possa ajudá-lo nesse sentido.


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