Mobilidade

Atualizado: 18 de Fev de 2021

Existe muito ruído por aí quando o tema é mobilidade. Por isso é importante termos bem clara a definição do que é mobilidade para nós, na cultura do movimento, e como nós construímos mobilidade dentro da nossa prática.


Mobilidade nada mais é do que a “capacidade de se mover”. E é aí que começam as questões. Muita gente confunde mobilidade com flexibilidade. Essa confusão parte de dois pressupostos que, ao nosso ver, são equivocados.


O primeiro mito é que basta se alongar para construir mobilidade.


O treino tradicional de flexibilidade, focado em alongamentos passivos, onde o indivíduo apenas relaxa por muito tempo em uma posição limite, na nossa opinião, não só não traz ganhos reais de mobilidade como também, no longo prazo, pode vir a produzir lesões indesejadas. 

Porque a capacidade de se mover livremente requer não apenas alcance dos tecidos, mas também força para chegar por conta própria e para sustentar essas posições. Em qualquer movimento que façamos, há um nível de força/contração que precisa ser feito para resistir à ação da gravidade. Não existe movimento sem carga, sem peso.

Portanto trabalho real de mobilidade exige não apenas ganhos de alcance articular, mas junto com isso, a capacidade de produzir força nesses novos alcances. Força é específica à posição. Por isso o trabalho de mobilidade é um trabalho de ganho de força no limite das articulações.

Para isso, usamos protocolos específicos como os “alongamentos progressivos com carga” (Loaded Progressive Stretching) usados pelo nosso professor Ido Portal. Nesses protocolos, ao mesmo tempo em que testamos os limites de alcance dos nossos tecidos, estamos também fortalecendo a articulação para que ela possa, de forma segura, sustentar essa posição em uma situação de movimento real.


O segundo mito é pensar em mobilidade apenas como uma questão muscular.


A grande maioria dos treinos de “mobilidade”, além de focar apenas na questão da ‘flexibilidade’, também ignoram o fato fundamental de que parte considerável dos nossos limites articulares não está contido apenas na falta de alcance dos tecidos. O nosso sistema nervoso central desempenha um papel chave nesse processo. O sistema nervoso limita o acesso a determinado movimento de qualquer articulação quando ele considera perigoso aquele movimento. E o que pode levá-lo a fazer isso?


O primeiro motivo é justamente o que falamos no primeiro mito da mobilidade. Falta de força. Quando nosso sistema nervoso identifica que não temos capacidade de contração muscular em determinado alcance ele vai tentar limitar nosso acesso a esse alcance pois é um alcance perigoso para o sistema, visto que a contração muscular é justamente o que protege a articulação de cargas e impactos.


Um outro motivo é a dor ou trauma. Determinados movimentos que nos causaram dor ou algum tipo de trauma, antigas lesões, provavelmente vão ser evitados pelo sistema nervoso central, e nós temos que reprogramar nosso cérebro para que, aos poucos, ele vá permitindo o acesso novamente a esses lugares.


O terceiro motivo são crenças. Grande parte da nossa cultura sedentária tende a considerar alguns movimentos “errados”, supondo que existem “movimentos que fazem mal”. Nós acreditamos que não existem movimentos errados. Existem indivíduos que não estão preparados para determinados movimentos. A crença de que um movimento vai fazer mal em si é motivo para o sistema nervoso bloquear nosso acesso a ele.


E um quarto motivo é a própria falta de recursos de coordenação. Mobilidade é também coordenação. A capacidade de transmitir e aplicar forças pelo nosso corpo é fundamental para que possamos de fato expressar mobilidade real. Então muitas vezes é a falta de recursos neurais de coordenação que nos impede de atingir determinada posição. Corpos coordenados são corpos móveis.


Então, tendo derrubado esses mitos em torno do que é a mobilidade e como desenvolvê-la, fica mais fácil começar a desenvolver um trabalho para ganhos de mobilidade real.