Evolução e saúde: como a perspectiva evolutiva nos ajuda a entender sobre nossa saúde.

Atualizado: Out 12

Quem me acompanha há um tempo sabe que tenho muitas críticas à forma como cuidamos da nossa saúde. E penso que boa parte desses equívocos vem das próprias instituições de ensino na área da saúde. Neste texto pretendo apresentar um panorama mais amplo dessa questão. Esse é um texto mais longo do que os que costumo escrever, mas penso que talvez seja o que de forma mais completa resume a minha visão sobre o nosso corpo e a nossa saúde. E também acredito que entender alguns dos princípios que trago nesse texto podem mudar drasticamente a forma como você encara seu corpo, sua saúde e seus hábitos.


Penso que profissionais da saúde, apesar de terem vasto conhecimento técnico, muitas vezes pecam em raciocínios elementares sobre como o corpo funciona. Acredito que a falta de aplicação de conceitos da biologia evolutiva está na base de boa parte do problema. Essa realidade está mudando lentamente e espero poder contribuir para essa mudança de alguma forma.


Abaixo darei alguns exemplos do que quero dizer por “erros elementares” a respeito de como o nosso corpo funciona. Certamente as afirmações a seguir lhe soarão familiares e é capaz de você inclusive considerar a maioria delas como verdades auto evidentes. Depois de apresentá-las irei, uma por uma, mostrar onde considero estar o erro e propor uma forma alternativa de enxergar a questão.


Vamos lá.


  • “Você nunca mais vai poder fazer isso”. Não é incomum vermos médicos com anos de experiência, falando para pacientes com dor que eles nunca poderão retornar às suas atividades esportivas porque “elas fazem mal”. Até porque grande parte deles ainda consideram que dor e lesão são sinônimos (nesse texto trato especificamente sobre a questão da dor)


  • Repouso, gelo e remédio. Ou cirurgia. Outro caso comum é chegarmos a um médico com dores ou com uma lesão e a recomendação de “tratamento” ser repouso, gelo e remédio e, quando estes não funcionam, o próximo passo só pode ser uma intervenção cirúrgica. Isso quando não nos recomendam uma cirurgia logo de cara.


  • “Você não pode carregar peso”. Também não é nada raro ver fisioterapeutas ou profissionais de educação física pedindo para pacientes idosos “evitar carregar peso” pois isso pode machucá-los. Como solução prescrevem exercícios de pranchinha ou abdominais para “fortalecer a musculatura abdominal”.


  • “Sua postura é torta. E isso causa sua dor”. Também é comum escutar que dores musculoesqueléticas são causadas por “má postura”, por “sentarmos torto” ou coisas do tipo. E supor que achados em exames de imagem são “causa” da dor que sentimos.


  • “Precisamos comer 5 refeições por dia. E carne causa câncer”. Ouvimos constantemente nutricionistas formados, replicando mitos sem sentido como “temos que comer de 3 em 3 horas”, “carne causa câncer” ou abominando o jejum como uma “dieta da moda”.


  • “Só calorias importam”. Também é senso comum entre nutricionistas, que emagrecimento e engorda são uma questão puramente aritmética. Calorias que entram e calorias que saem.


  • “Máquinas são mais seguras e, portanto, melhores”. Não é raro vermos educadores físicos que quase não prescrevem trabalhos com peso livre e recomendam para seus alunos apenas exercícios em aparelhos “por serem mais seguros”, ou então aderem às novas modas de botar as pessoas em cima de bolas “bosu” enquanto realizam agachamento para “trabalhar músculos estabilizadores”.


  • “Tênis, tênis, tênis. Quanto mais amortecimento melhor”. E para finalizar, a ideia onipresente na nossa cultura, de que para correr precisamos de um tênis de corrida “para minimizar o impacto”.


Todas essas recomendações que eu descrevi podem parecer desconexas, mas defendo que todas elas têm uma mesma origem. O desconhecimento das bases da biologia evolutiva.


Apesar de “A origem das espécies” de Charles Darwin ter sido publicado em 1859, demorou muito tempo para ser aceito até mesmo no meio científico. Mesmo assim é espantoso ver que, em pleno século XXI, a revolução que a sua teoria causou e os recentes avanços no estudo da biologia evolutiva ainda não atualizaram diversas áreas do conhecimento que, em tese, deveriam ter sofrido imediatamente uma profunda revisão à luz desse conhecimento.


Evolução é a base


A evolução é a raiz de toda a função biológica. Quase tudo que é biológico só existe pois, em algum momento na história evolutiva, foi uma adaptação necessária à sobrevivência de determinado organismo. Toda a biologia só faz sentido à luz da evolução. E toda a ciência da saúde só faz sentido à luz da biologia. A biologia evolutiva deveria ser a base de todo raciocínio na medicina, fisioterapia, nutrição e mesmo na psicologia.


Pablo Santurbano no livro “Evolução e Movimentação Humana” aponta alguns dos motivos para isso não acontecer. O primeiro deles é puramente cronológico. Os pilares da medicina contemporânea foram construídos antes da maior parte dos avanços na ciência da biologia evolutiva. As bases da educação física moderna e da fisioterapia contemporânea foram criadas no final do século XVIII, início do XIX, antes de Darwin publicar “A origem das espécies”. Foi daí, por exemplo, que surgiram movimentos como o “polichinelo” e outros padrões estereotipados, construídos em um contexto industrial e militarista mas que não tem nenhum fundamento biológico evolutivo.


No entanto, mesmo depois da consolidação da teoria evolutiva nos meios científicos, esses campos não foram atualizados. É evidente que motivos culturais como a religião, contribuíram - e ainda contribuem - para isso. Os manuais de cinesiologia também seguiram isolados do conhecimento evolutivo, baseando-se apenas em métodos dissecativos (falarei mais disso adiante), que deram origem aos mitos de que músculos podem ser considerados e tratados de forma isolada no corpo humano. “Até algumas décadas atrás nenhum procedimento realizado com regularidade na fisioterapia, ou até mesmo na medicina, era respaldado por evidências científicas.” (p.240) Afirma Pablo Santurbano. Também vale ressaltar que a educação física no século XX sofreu muita influência de praticantes de fisiculturismo, que moldaram boa parte do que são as academias atualmente.


Hierarquia científica


Existe uma hierarquia na estrutura científica onde ciências que lidam com fenômenos mais simples, e portanto que podem chegar a conclusões mais certeiras, devem servir de base para as mais complexas e, portanto, menos certeiras. Nesse sentido, a matemática, depois a física e a química são a base do conhecimento humano. Tendo esses saberes como base, está a biologia, que por sua vez é (ou deveria ser) base das ciências da saúde.


Um axioma matemático tem uma autoridade que dificilmente será refutada nos próximos anos ou décadas (mas ainda é e deve ser possível). Um químico ou um físico quando fala de leis da natureza, dificilmente estará falando de algo sem sentido. A biologia já se encontra na interseção entre as ciências “duras” e as “moles”. Por tratar de fenômenos muito mais complexos do que a física e a química, já deve ter mais cuidado com suas conclusões. A como a medicina, a fisioterapia, a educação física ou a nutrição, são saberes vinculados diretamente ao saber biológico. Portanto, assim como uma afirmação biológica não pode negar uma lei da física, uma afirmação da medicina não pode negar leis biológicas.


Portanto, supor que um profissional de saúde possa desempenhar um bom trabalho sem conhecimento de base da biologia evolutiva é como supor que Einstein poderia desenvolver a teoria da relatividade sem conhecimento da lei da gravidade ou das leis da termodinâmica. Não faz sentido. Afinal, a evolução é a base que sustenta todos os porquês da biologia. Como já foi dito, a biologia humana só faz sentido a partir da evolução. Sem ela, temos apenas fatos desconexos sobre nós mesmos, mas não há forma de construir um saber integrado do todo.


É essa lacuna que nos faz aprender por exemplo, em uma aula de anatomia, que o músculo reto femoral tem origem na espinha ilíaca e no acetábulo e tem a função extensora da articulação do joelho. Não paramos em nenhum momento para pensar que, supor que a “função” de um músculo é estender uma articulação não nos diz nada a respeito da sua função. O fundamental, quando pensamos na função de algum músculo é entender sua função biológica evolutiva. Isso quer dizer que não apenas o reto femoral, mas os músculos das nossas pernas como um todo foram construídos para nos fazer caminhar, saltar, agachar e tantos outros movimentos fundamentais para a nossa sobrevivência. É fundamental entender como essa função foi aplicada no contexto da nossa evolução. Quando pensamos dessa forma, fica mais fácil perceber porque o trabalho de mera contração isolada dos músculos do quadríceps em uma cadeira extensora não é suficiente para nutrir nossas necessidades básicas de movimento.


O método dissecativo


Boa parte do que entendemos de anatomia e cinesiologia hoje, e que serve de base para o conhecimento dessas disciplinas a respeito do corpo humano, foi construído a partir do método de dissecar cadáveres. Esse método, apesar de responsável por avanços valiosíssimos no conhecimento humano, por motivos óbvios, acaba produzindo uma negligência problemática a respeito de como o corpo humano vivo e em movimento funciona. A pergunta sobre o como, o porquê e para que os movimentos existem, pergunta essa feita pela biologia evolutiva, não é feita pelos manuais de cinesiologia que embasam o conhecimento do corpo dessas disciplinas.


Esse fato também contribui para a ideia de que para reabilitar a função de um corpo podemos simplesmente isolar e fortalecer um músculo de forma desligada de um contexto. Essa visão segmentada e fragmentada do corpo só é possível quando consideramos um corpo morto, onde mover um músculo não tem impacto sobre todos os outros. Tal visão ainda foi exacerbada na educação física por conta da cultura do fisiculturismo cujo objetivo era simplesmente inchar músculos de forma isolada, sem nenhum tipo de preocupação com a função.


Recentemente alguns profissionais, apesar de terem mudado seu discurso e começado a falar do corpo de forma mais integrada, ainda demonstram uma falta de compreensão a respeito do conhecimento evolutivo e do porquê somos o que somos e fazemos o que fazemos.


Agora que já estabelecemos o panorama geral da coisa, vamos aos exemplos que citei no início do texto, para mostrar, na prática, como um conhecimento de base da ciência evolutiva é chave para não emitir opiniões sem sentido a respeito de como nosso corpo funciona. Vamos dividir as questões por área, começando pela medicina e fisioterapia, passando pela nutrição e terminando com a educação física.



MEDICINA e FISIOTERAPIA


“Você nunca mais vai poder fazer _______________” (insira aqui sua atividade física de preferência)


Começamos pela recomendação médica de “parar com as atividades” pois elas “fazem mal”. Vamos lá. Nós humanos, da espécie homo sapiens, somos animais cujo sucesso evolutivo dependeu, em grande medida, da nossa capacidade de se mover em bipedia, por longos períodos de tempo. A caça de persistência, ou seja, caçar animais até que eles não suportassem mais fugir, era a principal forma como nossos ancestrais conseguiam alimento de qualidade para si e para a tribo. Junto com isso, tínhamos que lutar contra presas e predadores, carregar peso extra constantemente (crianças, alimento, ferramentas, matérias primas…), e eventualmente rastejar, rolar, saltar, nos pendurar, arremessar, escalar... Nossas estruturas anatômicas foram todas moldadas para esses objetivos. Que são basicamente se mover constantemente e de forma variada.


É sabido entre neurocientistas que o motivo pelo qual organismos têm um sistema nervoso, é para produzir movimentos complexos. Movimento é uma demanda neurológica e fisiológica básica introduzida de forma profunda na nossa biologia pela evolução.


Felizmente nenhum (ou quase nenhum) médico, hoje recomendaria o sedentarismo pleno. Mas a facilidade com que eles descartam a possibilidade do paciente voltar às suas atividades físicas e as atividades substitutas geralmente propostas por esses profissionais demonstram um desconhecimento desse fato biológico básico. Fazer 3 séries de 30 segundos de pranchinha ou de 8 repetições de desenvolvimento de ombro em uma máquina, ou apenas caminhar (apesar desse pelo menos ser um movimento natural à nossa espécie), não darão conta das necessidades de movimento do nosso corpo. E muitas vezes a atividade que o profissional está proibindo por “fazer mal” é muito mais nutritiva física e existencialmente do que as alternativas apresentadas por ele.


Gelo, repouso e remédio.


Quem nunca se machucou, foi a um hospital ou a um médico, e voltou para casa com receita de um remédio analgésico e ou anti-inflamatório, recomendação de repouso e gelo? Pois é. Essa é uma prática extremamente difundida, que também só faz sentido se esquecermos qualquer conhecimento de biologia evolutiva básica. Pois vejamos. Grande parte das dores musculoesqueléticas e mesmo das lesões que ocorrem por motivos bobos, são decorrência da incompatibilidade evolutiva entre o meio onde evoluímos para prosperar e o meio onde vivemos hoje. Nosso organismo foi criado para se movimentar de forma generalista, muitas horas por dia. Mas hoje vivemos em um ambiente de conforto e sedentarismo extremo, onde realizamos poucos movimentos em termos de volume e abrangência.


Entender isso nos faz ver que a causa fundamental que gera boa parte das dores e até lesões no nosso corpo é a falta de movimento. A falta de estímulos motores faz com que nosso corpo se fragilize e enfraqueça. Portanto, tomar um analgésico, aplicar gelo para mascarar a dor, e repousar, apesar de atenuar os sintomas, não vai atuar de nenhuma forma sobre as causas mais importantes daquela dor. Além disso, se sabemos que o processo inflamatório é um processo natural que sinaliza justamente a resposta do corpo a uma lesão. A ideia de tomar um anti-inflamatório também pode ser uma tentativa de silenciar sintomas, silenciar mecanismos ancestrais de cura, para produzir um conforto ilusório e temporário. É claro que a inflamação excessiva, sobretudo a crônica, deve sim ser controlada, mas a tentativa de evitar qualquer processo inflamatório no nosso corpo acaba gerando o efeito inverso que é o de fragilizar e não de curar.


E por último, a recomendação de estimular o paciente a expor, gradativamente, seu corpo a mais movimento como base do processo de reabilitação, raramente é feita. Infelizmente uma grande parte dos tratamentos na área de saúde ainda se preocupam muito mais com administrar níveis imediatos de desconforto do que com produzir de fato uma recuperação duradoura e definitiva.


Não é à toa que o famoso método RICE (rest, ice, compression, elevation), repouso, gelo, compressão e elevação, ainda usado por profissionais desatualizados como tratamento, foi abandonado por seu próprio criador, Dr. Gabe Minkin, que em 2014, publicamente afirmou que seu método, apesar de muito utilizado, acaba atrasando mais do que acelerando o processo de cura. Apesar dessa demonstração de honestidade científica do próprio criador do método, muitos profissionais seguem utilizando esse tratamento anacrônico por não entender a importância central do movimento para a nossa biologia.


“Você não pode carregar peso”


Quem, com mais de 40 anos, nunca ouviu essa frase vinda da boca de um profissional de saúde? Pois é, mais uma recomendação resultante do desconhecimento sobre biologia evolutiva. Já sabemos que nossas estruturas anatômicas evoluíram em um contexto onde constantemente tínhamos que carregar peso, das mais diversas formas. As células do nosso tecido sentem e respondem às cargas impostas a elas, se fortalecendo na medida em que aplicamos alguma sobrecarga, e se enfraquecendo, caso não recebam nenhum tipo de estímulo mecânico. Trata-se de um mecanismo adaptativo básico. Na natureza, tudo que é estimulado se fortalece. E o que não é acaba sendo descartado.


Qualquer marombeiro conhece esse mecanismo. Precisamos estressar as fibras musculares para que, ao se regenerarem, elas fiquem mais fortes. Mas com ligamentos, tendões e ossos, ou qualquer tecido do nosso corpo, o processo é o mesmo. A realidade nos envia estímulos o tempo todo. Sinalizações. E o corpo se adapta conforme esses estímulos. Se adapta para poder suportá-los melhor. E para conservar energia e poder gastá-la com o que de fato é importante, ele descarta aquilo que não é estimulado.


Mas agora voltemos para uma pessoa de mais de 40 anos. Nessa idade, em um ambiente natural, a pessoa já passou da sua idade reprodutiva. Portanto ela terá menos necessidade de demonstrar força, e menos condições de se envolver em situações de caça ou que demandam grandes esforços físicos. Ela já cumpriu seu papel reprodutivo. Por isso, a partir dessa idade, o processo natural de perda de massa muscular e óssea começa a acontecer. Sobretudo entre mulheres, que são as mais aconselhadas a não carregar peso. Agora imaginemos que, nos dias atuais, essa pessoa provavelmente já era sedentária antes mesmo dos 40 e, portanto, não precisou desenvolver muita musculatura em sua juventude, e que agora passa pelo processo de perda natural da pouca massa muscular que ela tem. A última coisa que essa pessoa precisa é evitar carregar peso. Pois carregar algum tipo de carga, claro que na dosagem adequada à sua capacidade, é a única coisa que pode retardar os efeitos inevitáveis da perda de massa muscular e densidade óssea.


Mas quando médicos, por exemplo se deparam com osteoporose (ossos com menor densidade, quebradiços, porosos, frágeis), em vez de recomendarem exposição a cargas progressivas para sinalizar o corpo de que ele precisa se adaptar, aumentando a densidade óssea, ou melhor, até recomendando o trabalho com cargas preventivo para todos seus pacientes saudáveis, sobretudo depois dos 40 anos, fazem o exato oposto. Dizem que o paciente deve evitar carregar peso e recomendam tomar mais cálcio, como se essa substância fosse magicamente produzir resultados no corpo, mesmo sem nenhum tipo de sinalização do mundo externo para tal.


Sim, o cálcio (e a vitamina D) são importantes no processo de prevenção e tratamento de osteoporose. Mas simplesmente medicar suplementos não dá conta de entender a origem do problema da osteoporose em primeiro lugar. Achados antropológicos mostram que essa era uma condição inexistente entre nossos ancestrais. O motivo pelo qual nossos ossos vão se tornando “isopor” é claramente pela falta de estímulo (carga) que aplicamos sobre eles ao longo da vida, em total desconexão com o ambiente para o qual fomos preparados para sobreviver. Suplementar cálcio para alguém completamente sedentário ajuda, mas é como encher uma banheira furada. Seguimos atuando sobre os sintomas e não sobre a causa.


Enquanto esse diálogo da área de saúde com a biologia evolutiva não acontece, fisioterapeutas vão seguir passando exercícios como pranchinha ou movimentos lineares isolados em aparelhos que não tem nenhuma relação com a função para as quais nossos tecidos evoluíram para funcionar. Tentemos imaginar uma situação onde nossos ancestrais teriam que ficar 2 minutos parados em posição de prancha, ou algo parecido. Se queremos produzir estabilidade do nosso centro, nada melhor do que jogar uma carga nas costas e caminhar, agachar, ou até ficar parado. É esse tipo de trabalho que nossa estrutura está preparada para fazer e se adaptar. Mas o que vemos por aí são muitas pranchinhas e poucos levantamentos terra, agachamentos livres ou caminhadas com peso, sobretudo em populações idosas, que são as que mais precisam.


Movimentos “errados” = Lesões = Dor


Raras são as pessoas que desconfiam dessa associação perversa. Afinal, ela ainda está presente entre muitos profissionais da saúde. A ideia de que existem “movimentos corretos” e “movimentos errados” em si também fere princípios básicos da biologia evolutiva.


Supor que existem movimentos corretos e movimentos errados significa desconsiderar a nossa capacidade de adaptação biológica. Não podemos pensar que certos movimentos “fazem mal” sem considerar o indivíduo que está realizando esse movimento e suas capacidades em um dado momento.


Sim, a biologia evolutiva nos diz que há movimentos para os quais estamos mais ou menos adaptados naturalmente a realizar. Mas a capacidade de adaptação no decorrer das nossas vidas é brutal. E sim, existem formas mais ou menos eficientes de se movimentar. Mas o próprio conceito de eficiência é relativo quando falamos de organismos biológicos complexos e será diferente dependendo do indivíduo que consideramos.


Não precisamos ir muito longe para perceber isso. Basta sair na rua e ver pessoas caminhando. Perceberemos claramente uma série de diferentes estratégias para realizar esse ato. Se considerarmos que nossos corpos seguem a lei básica da conservação de energia e, portanto, que estas pessoas se movimentam da forma mais eficiente possível dentro das suas capacidades naquele momento, fica claro como eficiência em movimento é um conceito relativo.


É importante notar que, por eficiência, me refiro à noção de realizar uma tarefa com menor gasto energético possível. Não estou afirmando que aquela é a melhor forma de caminhar possível para aquela pessoa. Apenas que é a mais eficiente.


Portanto, um conceito importante da biologia evolutiva que é importante ser compreendido é o da variabilidade biológica. Pequenas mutações aqui e ali, que geram a variabilidade biológica e fazem indivíduos não serem exatamente iguais, é o que permite a evolução em primeiro lugar. E vimos que diferentes corpos, terão conceitos de eficiência diferentes. O que é um padrão de movimento eficiente para um corpo pode não ser para outro.


Para citar outro exemplo, alguém que tem mais mobilidade de ombros pode ter como estratégia motora disponível e relativamente eficiente, carregar algo pesado acima da cabeça com braços estendidos. Outra pessoa com mobilidade mais restrita, pode preferir carregar o peso mais a frente do corpo, com braços flexionados. Eficiência de movimento é um conceito relativo que leva em conta desde a sua estrutura óssea, sua capacidade muscular, seus alcances articulares, capacidade de coordenação, até o contexto onde você se insere e a composição química do seu organismo em um dado momento.


Em segundo lugar, é fundamental entender que somos um sistema complexo. A relação do nosso sistema nervoso com nossos músculos não é uma relação linear de simplesmente ligar ou desligar determinados músculos para realizar movimento. O sistema nervoso tem infinitas formas de produzir movimento a partir da conexão com cada tecido do nosso corpo, em diferentes intensidades, de acordo com as estratégias e recursos que ele tem a disposição em um dado momento. Isso quer dizer que se você realizar 10 agachamentos aparentemente iguais, nenhum deles vai ter sido plenamente igual. Em cada repetição, seu sistema adotou pequenas alterações em padrões de ativação muscular para se adequar às mudanças na situação.


A fadiga altera nossos padrões de movimento. Na medida em que determinadas estruturas vão se cansando, por exemplo, o sistema nervoso aplica diferentes estratégias, ativando outras estruturas em maior ou menor medida, para realizar aquela tarefa. (Em outro texto falo com mais detalhes sobre isso) O nível de stress no nosso organismo nos transforma e, portanto, pode transformar nossas capacidades e estratégias de movimento. (Falo sobre os efeitos do stress no nosso organismo em outro texto). O medo nos faz realizar movimentos de forma diferente. O contexto social molda a forma como nos movemos. Nosso nível e foco de atenção mudam a forma como nos movemos. Cada mudança, por menor que seja, no ambiente ou no indivíduo, vai alterar a maneira como nós realizamos uma tarefa.


Portanto, mesmo em um ambiente altamente controlado, não há forma de controlar todas essas variáveis. Porque mesmo que conseguíssemos construir um ambiente plenamente estável (o que já é uma fantasia), não temos como manter o indivíduo plenamente estável. Nós mudamos e nos adaptamos a cada instante. Então se alguém te disse que há como fazer isso, fuja. Ou essa pessoa ignora a forma como funcionamos ou ela está mentindo provavelmente para te vender algo.


Entender tudo isso, e também entender que se não fôssemos organismos altamente adaptáveis e resilientes, nossos ancestrais não teriam sobrevivido às condições inóspitas da savana africana, nos faz perceber que talvez não seja uma boa ideia pensar em termos de “movimentos corretos” e “movimentos errados”. Pois se somos diferentes uns dos outros, se usamos infinitas estratégias diferentes para produzir movimento, se somos adaptáveis e resilientes e não temos controle sobre a demanda que estamos gerando sobre cada estrutura do nosso corpo, não há como definir o que seriam “movimentos corretos” e “movimentos incorretos”.


Pelo contrário, a atitude a se tomar é a de estimular nosso corpo a ter cada vez mais estratégias motoras, cada vez mais liberdade e possibilidades de movimento, resiliência e capacidades para poder se adaptar de forma mais eficiente às demandas impostas pelas tarefas da vida e pelo ambiente. Estimular a variabilidade motora e a execução de diversos gestos e padrões de movimento deve ser a atitude de um profissional da saúde. E não limitar nossas possibilidades de movimento a padrões estereotipados, tidos como “corretos” por uma ciência que, claramente, já se encontra ultrapassada.