Evolução e Neuroplasticidade

Atualizado: 18 de Fev de 2021

Pra gente entender um pouco melhor como nosso corpo funciona e se relaciona com o ambiente externo, é importante termos uma compreensão básica do que é o mecanismo evolutivo.


O processo evolutivo é resultado do relacionamento de organismos vivos com o meio externo. Determinadas características de certos organismos vão lhes fornecer vantagens ou desvantagens para sua sobrevivência em um dado ambiente. Os organismos com características mais vantajosas tendem a sobreviver e se reproduzir mais do que os outros. Com o passar do tempo, geração após geração, essas vantagens competitivas vão se tornando mais presentes até se tornarem característica de toda a espécie. Enquanto isso, os organismos dotados de desvantagens competitivas vão se tornando a cada geração menos numerosos, até eventualmente serem extintos. Trata-se de um processo, portanto, não intencional e de longo prazo, pois acontece no espaço de tempo de muitas gerações. 


Nós humanos também existimos sob essa mesmas leis evolutivas. Porém, o grau de complexidade que nosso organismo atingiu, nos coloca em uma situação um pouco diferente dos outros organismos vivos. O desenvolvimento do neocórtex nos mamíferos trouxe um novo elemento ao processo evolutivo que, em nós, humanos, tem sua manifestação mais radical. O neocórtex é uma estrutura altamente “plástica” (moldável) que está a todo momento detectando estímulos para poder construir adaptações (aprendizagem). O que o neocórtex traz de novo, então, é justamente a capacidade de se adaptar de forma mais profunda dentro do espaço de tempo de uma vida. É o que os neurocientistas chamam de neuroplasticidade.


Os organismos vivos mais simples, chegam ao mundo com um “kit de ferramentas” mais ou menos pronto. É como um programa de computador já feito, onde o que o organismo faz é rodar aquele programa durante toda a sua vida. O que os mamíferos e, principalmente nós humanos temos, é não apenas um “kit de ferramentas” que regula determinados instintos fundamentais, mas temos também a capacidade de criar novas ferramentas e programas, conforme vamos nos relacionando com o meio. É como se, em vez de um “programa”, tivéssemos um “sistema operacional”, que pode criar seus próprios programas de acordo com os estímulos que recebe.


Esse processo de construção e reconstrução constante de caminhos neurais é chamado de mielinização. A mielinização, de forma bem simples, é um sistema de ‘encapamento’ de caminhos neurais que faz com que aquele caminho, quanto mais ele é repetido, mais automático e eficiente ele vai se tornando, até o ponto em que nenhum esforço mental é necessário para que ele aconteça. Nosso cérebro está constantemente “mielinizando” caminhos neurais que disparamos com frequência, enquanto desmieliniza caminhos neurais que não são usados por muito tempo e, eventualmente remielinizando caminhos neurais esquecidos que voltam a ser disparados.


E onde é que isso entra na nossa prática? Bom, o que acabamos de descrever é justamente o que o professor Ido Portal quer dizer quando fala: “seu corpo vai ficar melhor em qualquer coisa que você fizer, ou não fizer! Se você não se mexer, seu corpo vai se adaptar e te fará melhor em NÃO se mexer, sedimentando seus tecidos. Se você se mexer, seu corpo vai te permitir mais e mais movimento.” - (vídeo completo no youtube com legendas em português - https://www.youtube.com/watch?v=b5ubjnt71gY )


No caso específico da nossa prática, junto com o processo neurológico de mielinização, nossos tecidos também se adaptarão à nova realidade. Além de padrões de movimentos complexos, precisamos criar tendões, ligamentos, músculos e até ossos (sim, tudo no nosso corpo está em constante adaptação) fortes, adaptados para atender às novas demandas. Corpo e mente não são entidades separadas. Em uma prática saudável, a adaptação neurológica e tecidual acontecem em harmonia.


Quando olhamos para o processo de mielinização e entendemos a neuroplasticidade fica mais fácil entender a besteira que é afirmar coisas do tipo: “eu não nasci pra isso”, “eu não levo jeito pra isso”, “eu nunca vou conseguir fazer aquilo”. Uma reação mais bem informada talvez possa ser: “esse é um processo que eu fui pouco exposto durante a minha vida, mas certamente com o tempo e com trabalho, meu corpo vai se adaptar”. Dado o tempo e o trabalho necessários e considerando as especificidades de cada corpo, tudo é passível de ser aprendido.


Convém perceber que a frustração, típica de qualquer processo de aprendizado, não é apenas “parte do processo”. A frustração é o processo em si. É a neuroplasticidade acontecendo. Quando somos apresentados a um evento para o qual não temos uma resposta automática enraizada e temos que buscar soluções para resolver aquela questão, o sentimento resultante desse processo é justamente a frustração. Portanto, fugir da frustração ou considerá-la como algo ruim é fugir da nossa capacidade de criar novos caminhos neurais. De aprender.


Negar a neuroplasticidade é, portanto, negar nossa capacidade de aprender. E essa capacidade é justamente o que nos define como humanos e nos distingue de outros organismos. Portanto, negar nossa capacidade de aprender é negar a própria condição humana.


A adaptação constante é uma lei. Estamos nos adaptando a tudo que fazemos ou não fazemos. A pergunta que fazemos aqui é: “qual direção eu quero dar para a adaptação do meu corpo?”. E uma vez escolhida essa direção, o trabalho é simplesmente expor o seu corpo naquela direção. Esse deve ser o ponto de partida não só para essa nossa prática, mas para qualquer prática que encontramos na vida.