Antifragilidade, atividade física, jejum e resposta não linear: somos dimmers e não interruptores.

Atualizado: 18 de Jun de 2021

O mundo natural é duro. A natureza não liga para cada ser que habita nela. Por isso, cada organismo vivo é necessariamente dotado de mecanismos para prosperar em meio a um ambiente hostil. Aqueles que não conseguiram esse feito ficaram para trás na história evolutiva.


Nassim Nicholas Taleb criou uma palavra para tentar dar conta desse fenômeno: "antifragilidade". O termo antifragilidade se refere não apenas a resiliência de, por exemplo, uma pedra, que é indiferente aos choques, ao caos, à hostilidade do mundo. Antifragilidade se refere à capacidade de prosperar com o caos. Se tornar melhor com ele.


A figura da antifragilidade é representada pelo animal da mitologia grega, a Hidra. A Hidra era um dragão de muitas cabeças. E sempre que algum herói tenta aniquilá-la cortando uma cabeça fora, duas cabeças nascem no lugar decepado. A Hidra se torna mais forte, quanto mais choques ela recebe. A antifragilidade demanda caos. Ela precisa dele para prosperar.


Vejamos em exemplos da nossa própria biologia. Quando realizamos uma atividade física demandante, o hormônio do stress, cortisol, se eleva pela nossa corrente sanguínea. Cortisol é um hormônio catabólico. Ele não apenas inibe a produção muscular, como efetivamente quebra tecido muscular, se preciso, para transformar em energia a ser utilizada na atividade física em questão. Além disso, o próprio esforço físico intenso também atua no sentido de romper fibras musculares. Atividade intensa é literalmente lesiva para o nosso organismo.

Todo esse processo, visto de maneira ingênua, linear, poderia ser considerado como qualquer coisa, menos algo benéfico. De um lado, hormônios que usam músculo para produzir energia e, de outro, as próprias fibras musculares sendo rompidas durante o trabalho. No entanto, sabemos que realizar atividades físicas intensas é parte fundamental para o processo de construção de massa muscular. Mas como pode algo que quebra e rompe nossas fibras, servir justamente para torná-las mais fortes?


Como já falamos, nosso organismo é antifrágil. Como acontece com a Hidra, depois de um esforço intenso, quando a necessidade de atividade acaba e o cortisol no nosso corpo diminui, saímos do modo "lutar ou fugir" e vamos aos poucos entrando no modo "descansar e digerir". Hormônios do crescimento e testosterona (sim, mulheres também produzem testosterona) começam a transformar aminoácidos em músculo e cálcio em ossos. A insulina vai removendo o excesso de glicose do sangue, depositando-a no nosso fígado para uso posterior. Um hormônio chamado IGF repara células danificadas por todo o nosso corpo. Durante o repouso, sabendo do estrago feito pela atividade física, nosso corpo liga todos os seus mecanismos compensatórios, para retornar à normalidade. Esse processo, ao contrário do anterior, é anabólico. Cria e regenera tecidos musculares.


Mas não paramos aí. Esse não é apenas um processo de volta à normalidade. Se o nosso organismo percebe que a demanda foi realmente intensa, ele atua no sentido não só de recuperar o que foi perdido, mas de produzir um pouco mais de tecido. Dessa forma ele nos prepara melhor para choques futuros. É o fenômeno da supercompensação. Em tempos de pandemia, temos a vacina como uma das principais representantes da antifragilidade do nosso corpo. Uma pequena dose da doença ativa uma resposta do nosso sistema imunológico, nos tornando resistentes a ela.


Percebamos que, se não houver o stress anterior, o mecanismo de supercompensação, a antifragilidade natural do corpo, não acontece. Sem estímulo, sem demanda, sem uma perturbação do equilíbrio do sistema, nosso corpo não tem incentivos para se fortalecer. Sem estímulos, apenas seguimos o efeito lento mas certeiro da decomposição pelo tempo.

Vamos agora para outro exemplo que considero ir na mesma linha do fenômeno da supercompensação. Jejum. O que é ficar em jejum? O ato de jejuar é o ato de não comer. De ficar sem alimento. Se jejum é não comer, não pode ser confundido com uma dieta. Pois dieta diz respeito ao que comemos. Não, jejum também não "está na moda". Experimente falar que jejum é modismo para um muçulmano, cuja religião adota a prática há milênios. Ou para um budista, um cristão, um judeu, um taoísta, para um hinduísta ou um praticante de ayurveda. Sim. Todas essas tradições tem algum tipo de jejum como prática. Nossos ancestrais caçadores e coletores achariam graça de ouvir que uma prática com a qual eles viveram por toda sua existência, o jejum forçado por falta de alime