Afiado para caçar, calmo para digerir


Há tantos professores bons por aí. Mas para cada professor muito bom, há dezenas de bons, centenas e milhares de professores não muito bons. A vida é uma só. E há muito o que aprender. Por isso, tenho cultivado o hábito de ser afiado para caçar conhecimento. Busco desenvolver heurísticas, pequenos truques, para identificar rapidamente bons praticantes e bons professores. Pois na vida real lidamos sempre com informações parciais e tempo limitado. Temos que escolher diante da incerteza. E quando o assunto é onde depositar minha atenção, procuro ser o mais certeiro possível, sobretudo nos tempos atuais, onde atenção e tempo são ativos tão escassos.


Por isso, tento ser afiado na caça. Saber focar nos poucos e bons. Se não for um puta sim, é certamente um não. Saber dizer não. Pois, de novo, a vida é uma só. Como disse Bruce Lee. "Tenho mais medo do homem que fez o mesmo chute mil vezes do que do homem que fez mil chutes uma vez".


Mas, uma vez escolhida a fonte, o chip muda. Se na caça a ideia é ser rápido e certeiro, depois que o alvo foi escolhido, entro no modo "descansar e digerir". O descanso aqui é metafórico. É um descanso de seguir caçando mais conhecimento, para digerir o conhecimento que está nas minhas mãos enquanto ainda está fresco.


E aqui, o processo deve ser, necessariamente, calmo, sem pressa nenhuma. O espírito afiado do caçador abre lugar para a paz de um monge zen. Que se alarga em detalhes por muito tempo. Que demora mais do que o habitual. Que olha, olha de novo. Para. Dorme. Acorda. E olha de novo. Até o fim. Essa é a digestão que te nutre e te transforma.


A digestão também é um ótimo momento para avaliar a qualidade do professor. Quanto mais tempo você passa digerindo e tirando suco do que foi "caçado", mais importante é o conhecimento. Conhecimento raso, como comida de fast-food, não dá margem pra muita digestão. Conhecimento profundo sempre traz algo novo, não importa quantas vezes você volte a ele. Dizem que um livro clássico nunca se esgota. Porque ele toca temas tão universais ao ser humano que, sempre que voltamos a ele, é um livro diferente. Porque você é uma pessoa diferente. Esse é o último patamar de maestria ao qual todo professor deve almejar.


Trocar as bolas, ser preguiçoso ao escolher a caça ou ser apressado em digerir o material, são dois erros que procuro evitar. Entender os ciclos, saber alternar o foco. Estar atento. E não ter pressa.


Obs. Truques rápidos para identificar um bom professor trazidos por um dos melhores professores que já conheci. Ido Portal (com influência visível do mestre Nassim Nicholas Taleb).


  • Walk the talk. Pratique o que você prega. Um professor deve ser antes de mais nada um praticante. Quem não pratica o que prega, dificilmente será um bom guia. Se você prega uma coisa e vive outra, das duas uma. Ou você não pratica o que prega ou o que você prega não funciona. Os dois casos são sinais vermelhos. Se o que você prega é bom, você deve viver o que prega. E se viver o que você prega é bom, você deve ser bom. A lógica é simples. Mas frequentemente esquecida.

  • Show me your students. Me mostre seus alunos. Os resultados da abordagem de um professor devem estar presentes não apenas nele mesmo, mas sobretudo em seus alunos. Quando uma pessoa faz, pode ser talento. Mas quando ela consegue fazer com que outras pessoas façam/aprendam, aí temos um bom processo.


E por último. Nassim Nicholas Taleb. Skin in the game. Que o conhecimento tenha a pele em risco. Que esteja exposto à realidade. Que ele possa ser testado de alguma forma. Adote formas de botar o conhecimento à prova. Testes e quantificações são apenas aproximações da realidade, mas são parâmetros necessários. Se um conhecimento é inteiramente quantificável, ele provavelmente não é tão profundo assim. Mas se um conhecimento é inteiramente não quantificável, provavelmente é baboseira, enganação. O campo do subjetivismo puro é terreno fértil para charlatões. Mas isso seria um tópico para um outro texto.